2:44 AM

Aporia

Aporia

A vida
O corpo
O álcool
A vida do corpo
O corpo do álcool
O álcool da vida
A vida da vida

A morte

A morte do discurso
O discurso da vida
O curso da vida
A morte do discurso
Trabalho.

8:46 PM

Espaço Público. Espaço de Direito

Espaços. Espaços vazios. Espaços cheios. Espaço qualquer preenchido. Espaço qualquer esvaziado. Espaço controlado. Espaço surgido da rugosidade, dos choques entre idéias, espaços das dobras geológicas, desdobramento espacial, esvaziamento espacial, espaço do vazio. Espaço político, espaço cultural, espaço dinâmico, espaço-tempo. Quem controla o espaço?

O cão urina e monta guarda: espaço do cão. O grupo invade a favela e monta guarda: espaço do tráfico. Outro grupo invade outra favela e monta guarda: espaço da milícia. A polícia sobe o morro: leva tiro do traficante; também leva tiro do miliciano. MST invade fazenda: espaço do fazendeiro; polícia mata trabalhadores rurais de Eldorado dos Carajás. Estudantes invadem reitoria: espaço público e espaço da representação acadêmica; levam borrachada e sindicância. Estudantes ocupam reitoria: espaço público e espaço da representação acadêmica; levam borrachada e sindicância de novo. Luiza visita a Pinacoteca do Estado: espaço público; Luiza paga sua entrada! De quem é o espaço?

Luiza entra no curso de Filosofia da Universidade de São Paulo. Sempre gostou de política e foi, inclusive, presidente do grêmio de seu antigo colégio. Não seria de se espantar que ela, ao entrar na universidade, fosse buscar informações sobre o movimento estudantil. Primeiro ela espanta-se com o vazio de idéias do movimento estudantil de seu novo espaço. Depois se espanta com os conflitos internos no espaço do movimento estudantil. Em seguida espanta-se com um debate de seus veteranos: "Espaços estudantis". Dizem a ela que um lugar, um espaço, uma dobra espaço-temporal, um fetiche, um buraco no prédio, um chão com escadas interrompidas por carteiras; um chão verde esburacado chamado "Espaço Verde" é de domínio dos estudantes. Ela pensa: posso fazer o que quiser, então? Que lei estudantil me proibirá de fazer orgias, por exemplo? E se eu quiser morar aqui por um tempo? Semana que vem vou fazer uma balada e pagar meu aluguel com o que arrecadar. Contudo, para sua breve alegria vem outro veterano acompanhado de alguém da Diretoria da Faculdade e diz que aquele espaço não é dos estudantes, mas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, e antes ainda da Universidade de São Paulo e se quiser dizem mais: é do Estado!

Ela fica pensativa: mas se é do Estado, então é público; e se é público, então é meu também! Eu quero dormir no "Espaço Verde"! Eu pago impostos, tenho direitos! Na semana que vem vou chamar meu amigos e fazer uma roda de samba e ganhar algum dinheiro. A USP é pública, quem vai reclamar. Lá tem gente que bebe, que gosta de uma batucada, então, posso vender bebida com o valor um pouco acima do que pagar e com o lucro eu pago meus amigos do samba e se sobrar eu já tenho algum tostão até o fim do mês. Até darei entretenimento, cultura popular e diversão sem cobrar entrada, diferente de como fizeram no museu; por que alguém reclamaria?

Há na Faculdade de Filosofia (FFLCH) um debate antigo sobre os espaços da Universidade. Diversos alunos, grupos, movimentos, partidos já vem de pronto com a questão "espaços estudantis". Antes de qualquer coisa não sou contra o termo, acredito que é justo, inclusive. Contudo o termo deveria conter a conseqüência de um debate de "espaços", privado e público, seguido de um sobre a utilização de um espaço público como espaço estudantil, característica do devido espaço, do espaço em questão, da dobra predial dentro do espaço público da FFLCH e antes ainda, da USP.

Como o debate se dá diante da questão "espaço público", devemos pensar o que é tal espaço dentro do Estado que vivemos, como funciona sua regulamentação, quem detém seus direitos e assim por diante. Poderemos considerar um debate crítico que sem dúvidas nos levará ao Direito e por isso acredito necessário um debate multidisciplinar, não por sermos incapazes de pensar o Direito dos espaços, mas pelo fato do debate nos levar a questões mais gerais, conseqüentemente fugindo do simples apelo de uso do "espaço estudantil" da FFLCH. Há regras de um jogo aberto, nada melhor que conhecer essas regras, não obstante se não funcionarem, o caminho é a subversão, pois também existe o direito de rebelião quando esgotados os canais de comunicação tangíveis.

A produção da espacialidade da sociedade urbana não pode ser entendida apenas no sentido econômico, mas também pelo seu conteúdo como uma produção social, política e cultural.

(a concluir)

2:01 AM

Quem sabe quem soube uma história

Disponibilizaremos aos poucos os capítulos da história que viemos escrevendo

Mesmo sem correção, o que deverá ser feito com muuuito mais tempo no

Futuro! Espero que seja mais uma pedra no sapato de alguém.

Abraços a todos ou ninguém.

DFR; JJB; FR

4:41 AM

Jardim das rosas de Outono

Hoje quando abria a janela, por um instante o tempo desapareceu. Com o tempo as minhas matematizações dos sentimentos, as equações perderam a razão sem o tempo pra computar. Com o tempo minha razão envergonhou-se de criticar as paixões. Por um instante eu fui todo sentimento porque sentir é interiorizar o externo. A graciosidade da vida soprou meu rosto num instante sem instante. Num instante sem tempo eu pude sentir a eternidade e espaço infinitos.

Avistei meu jardim onde as rosas floresciam ininterruptamente desabrochando num vermelho meus amores. Meus amores eu pude ver passando diante de mim. E o que é o amor senão qualquer coisa que alguém queira acreditar. Eu acredito nos meus amores. Todos eles plantados reverenciando minha alma de amante. Percebi o quanto o amor é um estado onde se quer viver a natureza humana. Tudo que vejo é possível pelos meus sentidos transfigurados de algo que não é além de mim, sou eu. São meus sentimentos os comunicadores desses diversos estados de mim.

No meu jardim quando penso no tempo sempre me esqueço doutras rosas. O tempo é esse vilão da razão que transforma o todo na parte. Por isso quando amei pela primeira vez achei que fosse a última, quando amei outra vez achei que fosse a última, quando amei da última vez achei que fosse a última. O tempo por um instante desapareceu num instante sem tempo. E meus últimos amores não foram meus amores, meu passado transformado de mim, daquilo que sou sem deixar de ser o que fui, foi meu amor meus últimos amores. Porque não há seqüência de amores em quem ama e eu não pude fechar os olhos para os próximos amores, porque não há próximo amor, há o amor.

O amor pode ser compartilhado com o amado. É mostrar ao outro esse jardim de rosas infinito e num beijo lançar a própria vida na direção do outro pra que aprecie juntos. Não é deixar de contemplar seu jardim e viver do jardim alheio. É admirar a beleza do outro e a beleza de si, a beleza da vida. A vida não é de um ou de outro, a vida, se existe, é o compartilhar da natureza humana, é admirar o outro como um eu, esse outro que sou eu, isso é o amor. E o que é o amor senão qualquer coisa que se queira acreditar. O amor é tão grande e tão incógnito quanto a busca de um sentido da vida, e apesar de grande cabe num beijo, num abraço, num olhar, num carinho, mas não cabe em palavras porque amor é atualidade, é sentir e deixar sentir. Sempre será o amor um cálculo errado porque foge da compreensão. Amor pode ser pura invenção, mas é humano e enquanto tal merece ser sentido pra que tenha valor ser humano.

Hoje descobri que sentir o outro é sentir o mundo, é sentir um eu, é acreditar num sentido da vida. E mesmo que no tempo não exista sentido, assim como pode não existir amor, prefiro abrir minha janela e num instante sem tempo observar minhas rosas e sentir que não só vivi, mas que vivo. É neste universo infinito de condições de possibilidade onde poderá sentir porque o tempo simplesmente desaparece quando se ama. Porque quando se beija não se teme abrir essa janela da alma onde descansa um belo jardim das rosas de outono.


D.F.R.

6:19 AM

Paixão de Outono IV

Na viagem de 28 dias a alma do poeta/palhaço observou o mundo. Descobriu o pranto e o riso. Que faz do palhaço quando descobre que rir nem sempre é por felicidade, a vida? Mostra que o pranto nem sempre é de tristeza, a vida. Que faz destas pessoas que nunca conhecerão, a vida? Apresenta a alegoria e os mitos distantes, a vida. Quem são as princesas acorrentadas que o poeta sempre busca? A vida.

O poeta quando acorda palhaço sempre busca na sua casa o riso. O palhaço quando acorda poeta sempre busca a esperança. O palhaço quando encontra o poeta, não ri. O poeta quando encontra o palhaço, não espera. O poeta-palhaço ri de sua própria desgraça enquanto o palhaço-poeta espera de sua fortuna. O escritor sempre busca em seu armário lá no fundo esses atores do mundo-circo. Todos constroem o circo no mundo. Ninguém destrói o mundo no circo. O teatro da vida sempre está à espera de seus atores. Entram em cena a alma, o poeta, o palhaço e o escritor. Que faz dessa multiplicidade sentimental, a vida? Encena o papel do pranto, da esperança, do riso e do possível.

Entra em cena a Alma.

ALMA: Que do riso faria eu se apenas sentisse? Que do pranto faria eu se apenas sentisse? Atingi diversos castelos em busca de uma princesa acorrentada. Encontrei desertos castelos de areia molhada. Era o pranto das mulheres que me amaram, mas não pude amar. Era o silencio das conversas que me buscaram, mas não pude ouvir. Eram corações humanos que me sentiam, mas não pude sentir. Eram pássaros que voaram, mas não pude voar. Eram luzes que iluminavam, mas não pude enxergar. Era ela que me esperava, mas não pude buscar.

Sai de cena a Alma.

Entra em cena o poeta.

POETA: Procuro essa tal princesa afortunada. Quem me diz onde está? É que não quero perder o pôr-do-sol. Importa-me sim que me assaltou e levou minha riqueza. Procuro essa tal de princesa. Que desgraça de riso me apresenta? Não acredito em você que com pouco se contenta. Procuro essa tal princesa afortunada. Que se dane em desgraça esta acorrentada. Quando era ladrão o pecado era moral. Quando era homem bom o pecado era mortal. Sou mal, um ser muito vaidoso que assassino corações escrupulosos. Alguém me diga onde está essa vagabunda solitária. Era tão boazinha, virou pó! Ah, que otária. Sentimentos, sentimentos e como lamentos vivem soltos por aí. Não quero saber se viva ou se morta. Quero apenas minha riqueza de volta. Sou hedonista e seu prazer é todo meu. Minha fúria vem dessa torrente de sentimentos e lamentos. A prostituta de todos nós se deu aos marinheiros, aos cavaleiros, aos coveiros, aos mortos, aos tesoureiros, aos tortos, aos cozinheiros, aos tropeiros. Pecai! Pecai de todas as maneiras tu vil princesa escavadeira. Foi num sopro que meu corpo de areia se perdeu na multidão. Encontro-me em cada castelo, mas nunca me completo, pois as correntes estão soltas e repleto de princesas que no mundo me perderam. Procuro essa tal princesa afortunada. Se for de uma nau que andarilhava nesses mares sem fim que eu te encontrarei, não sei. Eu comerei terra até te encontrar. Mas procurem em toda parte essa princesa afortunada. Pura ou degradada. Não me importo desde que seja a princesa afortunada.

Sai de cena o Poeta.

Entra em cena o palhaço.

PALHAÇO: Como diria o bobalhão: "Eu chovo às vezes e é chovo do verbo chover. Pois se chorasse o lenço da princesa secaria minhas lágrimas. Não, eu chovo em forma de rio. Eu rio também. Eu rio durante a chuva de mim muitas palavras e seus afluentes se transformam num mar.". Entrem os leões no picadeiro. O palhaço é um cara cansado gente. Olhem pra mim. Sou engraçado? Minha desgraça alimenta seus risos!? Entrem as árvores. Entrem as borboletas. Entrem os cavaleiros rodopiantes. Entrem todos do mundo da fantasia. Sim, sou palhaço. Num sonho eu caminhava em direção à princesa acorrentada. Toda contente à minha espera. Meus olhos começaram a arder e a imagem da princesa foi ficando embaçada. Quando cheguei ao seu lado cocei meus olhos. Somente correntes. Um vazio. Nenhuma princesa. Meus braços nas correntes. Um livro no chão. E isso tudo é engraçado, pois descobri um mundo de ilusão. Quantos mundos ideais eu criei. Quantas princesas sonhei. Quantas vezes eu dei cambalhotas para o rei da fantasia. Vivi de ilusões. Será que terei que brincar de quebra-cabeças de ilusões? De mundos que construí, de paixões que criei, de pessoas que gostei. Vivo um sentimento inventado? Pois é, que é do homem sem suas ilusões para pelo menos a vida fazer mais sentido? OK, próximo passo: Sinsalabim, que reserva o futuro pra mim? Pare! Prefiro não saber. Ei você aí, eu sei que está lendo, aconteça logo então, poxa! Dou risadas, dou muitas risadas: A vida é engraçada. Mas para que quereria o rumo certo se no caminho errado eu descubro o mundo? Eu te quero porque é de graça e neste estado de graça. Eu quero lhe usar. Sempre como a puta da montanha. Prostituiu-se e personificou todos os: Desejos, desejos, malditos desejos! Goze enquanto eu tomo meu café e leio Drummond. Isso tudo é uma palhaçada.

Sai de cena o Palhaço.

Entra em cena o Escritor.

ESCRITOR: Eu sinto. É Outono. Eu sinto. À moça desaparecida mando pela Lua a mensagem de agradecimento: Eu sinto. Eu sinto porque a vida é sensação, é pensar, é construir, é dar formas, mas eu sinto a vida agindo em mim. Eu disponibilizei meu coração para um mundo de encantos. Eu deixei meu corpo no calor de um toque. Eu sinto porque os olhos; Ah, os olhos. Que sintoma é esse, seus olhos são perfeitos. Não, os olhos! Eu sinto, sim, porque você é de verdade. Eu sinto porque na ilusão descobri a realidade. Ah, eu sinto. Eu sinto porque minha alma é toda encanto. Eu sinto porque sorri. Eu sinto porque a brisa toca meu rosto. Eu sinto porque quero sentir. Eu sinto porque me permito. Eu sinto porque está na minha frente e não está na minha frente. Eu sinto porque desejo. Eu sinto porque sou humano. Eu sinto porque sentir é estar vivo. Eu vivo porque sinto. Eu sinto as minhas mulheres como beldades estonteantes. Eu sinto porque vejo nelas o que realmente são: gloriosas, radiantes, espetaculares e perfeitas, porque minha visão não é limitada. Eu sinto porque sentem que busco a beleza que palpita dentro delas, até suplantar tudo mais. Eu sinto porque não podem evitar o desejo de libertar tal beleza e me envolver nela. Eu sinto porque sinto essa paixão de Outono. Eu sinto porque não sei quando terminará este Outono. Eu sinto porque lhe quero da forma que é. Eu sinto porque quero a luz da primeira estrela, cujo brilho está nos seus olhos, ilumine o coração despedaçado que preencho com a mais bela lembrança da sua infância. Eu sinto porque lhe quero.


D.F.R.