12:36 AM

Vida de Folha

Ultra-Curta experimental produzido por Douglas Feitosa Romão, aluno de Filosofia da USP.
Vida de Folha ou Sobre a brevidade da vida.
Inspirado no livro Sobre a brevidade da vida, de Sêneca
Trata-se de mostrar a passagem do tempo, o enclausuramento, o movimento e a morte.


1:53 AM

Carta ao amigo desconhecido

Carta ao amigo desconhecido

Prezado amigo,

Melhor,

Incólume amigo,

Na verdade,

Magistral excelentíssimo adorável despojado inadjetivável amigo,

Estou mandando esta carta para dizer-lhe a respeito de sua importância neste mundo, nesta casa, neste modo de ser, neste modo de pensar, para dizer-lhe do quanto sou grato por sua importância em nossas vidas, minha vida, na vida dele, na existência cativa que me persuade.

Vou lembrá-lo daqueles momentos de nossa infância, da minha infância, do momento em que ele começou calado a refletir sobre o mundo, não de modo filosófico tautológico cheio de imbróglios, mas daquele teatro cuja fantasia me levava, lhe levava, a ele mostrava tudo quanto minha imaginação podia sozinha, em dupla, em trio ou multiplicada por variáveis, imaginar, criar diversas realidades intangíveis neste mundo, mas em nossa mente. Vou lembrá-lo daquele momento. Vou lembrá-lo, pois assim invento um passado possível, potência jamais atualizada. Vou lembrá-lo, pois enquanto lembro, este passado é em minha imaginação e enquanto imagino que você lembra tudo quanto quero lembrá-lo.

No auto da minha infância eu desejaria conhecê-lo, mas tão pequeno e menino de mim mesmo não imaginava ele nem você, nem mesmo um mim. Eu daquele modo vivia puerilizado arremessando bolinhas de gude contra mim mesmo e arremessava ele e às vezes você contra as outras bolinhas, mas ainda jogava-me enquanto a pipa me empinava, eu ia lá longe. No auto da minha infância eu me declararia simplesmente criança, não quereria crescer tão logo nem selecionar ou privar minha imaginação. Queria que todos eles fossemos nós e eu mesmo seria ele ou ela, bastava criar, na verdade bastaria ser. No auto da minha infância eu desejaria fazer um auto da vida adulta só para sorrir ao porvir.

Mas caridoso amigo, o que é esta amizade que desejo, que deseja, que se faz existir em um momento enquanto amizade, enquanto vontade de amizade, amizade entre vontades cujos desejos são recíprocos? O que é esta amizade que imagino teria sido possível se conhecesse todos os caminhos que me levassem a você, é uma amizade de fato ou desejo de amizade na verdade egoísta, vontade de amizade daquilo que sou, vontade de ser amigo de mim mesmo, vontade de simular um outro no qual sou? Meu amigo, já faz muito tempo desde a última vez, foi conturbada eu me lembro, não nos deixamos conhecer. Porque não deixei que soubesse quem era esse outro que sou, ou esse outro que é você, pois sou outrem relativamente a você enquanto esse outrem é relativamente a mim mesmo conforme é aquilo que imagina de mim, aquilo que sou é outrem por você imaginado, sou a imagem daquilo que outrem tem de mim, sou enquanto outrem, amigo meu, imagina que sou. Amigo é para essas coisas mesmo, praticamente nossa razão de ser.

Eu queria muito que pudesse ouvir os tique-taques deste maldito relógio, na verdade sei que potencialmente o ouve. Será? Você é meu amigo, tenho certeza. Você é aquilo que potencialmente sou, aquilo que quero ser e aquilo que desejo. Amigo é objeto de desejo, imagino dando risada da minha cara não é? Sim, eu sei. Claro que sei, sou seu amigo, sou potencialmente você. Até onde quer dizer que o que se passa comigo afeta você meu caro? Não estou convencido que te afeto, mas estou certo que me afeta, é claro, pois é apenas desconhecido não irreal. Mas quando algo que desconheço pode ter uma realidade que me afeta? Acho que na verdade você existe sim, só não acho que te afeto tanto quanto me afeta, acredito que me afeto. Será que posso criar isso tudo? Estou afetando a mim mesmo, por quê? Acho que preciso me convencer que há outrem aqui meu amigo. Você já pensou que não há como pensar sem dialogar consigo? Será que esse outrem, amigo meu, potência minha, é minha própria voz ecoando alto na minha mente? São tantas questões e você parece estar tão longe, embora sinta que posso conhecê-lo a qualquer momento. Será que já o conheci e não soube quem era? Será que esse amigo existe ou eu visto aquelas imagens das pessoas com minhas fantasias de amigos, vou vestindo um por um. Mas a fantasia ao mesmo tempo em que conforta torna contingente todos eles.

Parece fazer sentido, quantos sujeitos já passaram por nossas vidas, meu querido amigo, mas quem foram eles senão nossas invenções. Foram todas representações de uma vontade, vontade de ser talvez. Digo vontade de ser, pois parece que outrem que me é potencialmente recebe essa quantidade potencial de mim e por isso é um meu-eu sendo além de mim, mas como só posso saber que sou pela imagem da imagem que outrem tem de mim há vontade no meu ser de agir, vontade de ser em mim, no outro e em-mim-no-outro. Toda essa conversa, meu caro, está me deixando assustado tamanha fantasmagoria, estou sentindo-me sedado, só não sei se de luz ou ilusão.

O que me deixa feliz é saber que a amizade como um movimento que não finda no sujeito que chamamos amigo está em toda a parte. Isso que chamamos amizade é o fluxo que se cria diante e internamente a cada sujeito, cuja representação de nossa vontade se faz viva e continua depois de morrermos, pois somos apenas o outro para alguém enquanto alguém nos tem imaginado. A amizade foi uma boa invenção humana quando aprendeu a criar laços afetivos dentro de um grupo. Independente de qualquer coisa só tem uma certeza. Há outrem e há mim. Preciso de outrem e outrem de mim. Invento outrem, pelo menos parcialmente, assim como outrem inventa este mim. Outrem é uma mistura de fantasia e realidade. Direi que outrem é a soma de outros, sou parcela dessa soma, e o que somos afinal? Uma coisa homogênia? Somos uma raça amiga? Ser humano é ser amigo? Ser humano é sendo amigo, meu amigo, seu amigo, é ser ação. Amigos vêm e vão. A amizade é este ponto inextensível que não é o que já foi, nem é o que será, é a atitude é o sendo.

Envio esta carta não na espera de uma resposta escrita, pois um pensamento já vale. Sei que estou sendo nesta leitura meu amigo desconhecido, seu amigo desconhecido. Quando terminar, me guarde na lembrança como um amigo desconhecido por vir.

Sinceramente a meu-eu amigo desconhecido,

De seu eu-meu amigo desconhecido.

Ponto inextensível, momento qualquer por vir da duração.

2:57 AM

O motim dos Deuses

O motim dos Deuses

A Fortuna pregou-lhe uma peça hoje. Na verdade vem fazendo isso desde que nasceu, lembra-se? Você acreditou estar vivo, estar vivendo mais um dia e respirando o ar que um deus lhe pôs na boca ou acreditou que uma chama acendia-se no peito chamuscando a mão daquele que não dizemos o nome. O Barqueiro ficava ali na espreita observando e de conluio com a Fortuna e os Outros. Não se assuste, eles são assim mesmo, Luciano que era homem bom e não se dobrava, apenas ria. Infelizmente passou a vez dele também, meu caro Leitor, e não há mais respeito no outro mundo. Eles querem coagir todos à supremacia do medo. A superstição que vigora dentro de si desde que acreditou em Fortuna, e basta uma vez para que seja desgraçada a morte inteira, prevalece.

Por qual razão rói as unhas? A vontade é tamanha de estar recluso dentro de si que precisa ingerir seus próprios fragmentos e forçosamente o faz, o ardor da autofagia que libera-lhe momentaneamente deste mundo perdido, uma satisfação do desejo de ter a si para sempre e não desperdiçar um pedaço sequer que é seu. Rói as unhas pela desrazão e quer parecer com aqueles amotinados, quer jogar na roda da Fortuna para que a sorte lhe traga um bem e esquece-se que eles não são deste mundo e tramam o seu fim. Arranca pedaço por pedaço ao longo do dia e Narciso sorri envolto de si, cheio de beleza e formosura. Decorre que ainda esnoba aqueles, cuspindo o pedaço já mastigado e arrancando os seus pêlos mostra que tem muito ainda dentro de si. Achei que fosse piada, mas descobri que tem vergonha daquilo que é, pelo medo de ser e viver, prefere a morte. Tem vergonha e cobre-se com panos, tem trauma de ser Homem e faz de tudo para descaracterizar a sua forma, minha metonímia. Faz o jogo dos deuses.

Aqueles amotinados! Tome o óbolo e dê minhas lembranças ao Barqueiro, mas leve todas, pois não quero lembrar que Sísifo abandou suas esperanças por um dracma para passar a noite com sua amada, que a Morte o leve para sempre ao Hades, este mundo já está corrompido demais.

Faz o jogo dos deuses.


J J Borges

5:18 AM

Você, meu ser

Você, meu ser

Quem é você que lê isto? Quem é você que se lê no que escrevi? Quem é você que há pouco tempo não lia, não me conhecia? Quem é você que acha que me conhece? Você me conhece? Quem é você? Você se conhece? Quem é você que se levantou hoje depois de dormir? Quem é você que roncou à noite? Quem é você que roncou durante o dia? Quem é você que estava com bafo? Quem é você que está com bafo? Quem é você que bafora nisto? Quem é você que atravessou a rua? Quem é você que leu jornal? Quem é você que não leu jornal?

Você não sabe quem sou. Você não acordou. Você está dormindo. Você está sonhando. Você está sonhando que está acordado lendo isto. Você não se conhece. Você não tem cabeça, não tem pernas, não tem braços, não tem peito. Você não tem coração.

Quem é você que faz a guerra? Quem é você que prega a paz? Quem é você que chora? Quem é você que reza? Quem é você que xinga? Quem é você que grita? Quem é você que corre? Quem é você que lê? Quem é você que não sabe quem sou? Quem é você que não sabe quem é? Quem é você que não é? Quem é você que não sou? Quem é você? Quem é?

Você não sabe. Você não sou. Você não é. Você não diz. Você é mudo. Você é surdo. Você é cego. Você não é. Você não foi. Você não sou. Não sou você. Não quero você. Não ouço você. Não sinto você. Não é você. Sou eu que escrevo. Sou eu que sou. Sou eu que vejo. Sou eu que corro. Sou eu que sonho. Sou eu que choro. Sou eu que sinto. Sou eu que quero. Sou eu que acordo. Sou eu que sou. Sou eu que sou você. Sou eu que não sou eu. Não sou você. Não sou eu. Não sou nada. Sou algo. Sou letras. Sou palavras ecoando na sua mente. Sou eu me construindo em você. Sou eu construindo você. Sou eu enquanto me lê. Sou eu que não sei quem sou. Sou eu que não sei quem é. Sou eu que estou em construção. Sou eu o construtor. Sou eu em desconstrução. Sou eu que sou você. Sou eu que não sou você. Sou eu sendo você. Sou eu sendo. Você sendo.

Quem é você? Quem é você que me é? Quem é você que não é? Quem é você que já foi? Quem é você que vai ser? Quem é você que já foi, mas que não é? Quem é você que ainda não é, mas que é sendo? Quem é você que existe num momento incalculável? Quem é você que deixa de ser para sempre? Quem é você que o que será não é, já foi? Quem é você que eu sou? Quem sou eu que sou sendo você sendo? Quem sou eu ou você que somos? Quem somos nós?

Você não sabe. Você não é. Você não sabe, pois não tem tempo de ser enquanto estou sendo. Sou enquanto lê. Quando refletir não serei mais. Não poderá refletir sobre o que é o seu ser, pois não sou e você não é. Você não existe. Você só é enquanto sou. Não pode parar de me ler. Você já não será mais quem era enquanto era comigo. Você já não é mais. Você não sabe quem sou. Você não sabe quem é. Você é simplesmente um eco no tempo. Você é e não é. Você é uma contradição. Você não é uma contradição. Você está condicionado ao que sou. Eu morri. Você não é. Isto é um sonho. Você morreu. Você dirá a todos que se sente louco. Na verdade ninguém te ouvirá. Não há alguém. Só ninguém. Só você e eu sendo morrendo a cada momento e sendo nascendo a cada momento.

Quem é você?

Você não sabe.


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FRIEDRICH ROMALEK


5:49 PM

O Sujeito - Friedrich Romalek

A idéia do conto é a provocação de que somos feitos a partir de uma leitura do outro e somos atualidade enquanto leitura do outro, cessa-se a leitura cessa-se o ser.

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O sujeito

Estava lá embaixo, parado, imóvel e estático. Não tinha formas, era incompreensível. Era uma coisa-Homem, um nada vindo-a-ser. Sua forma se confundia com o chão onde prostrava, uma mancha sujando o lugar.
Meus preconceitos me fizeram inventar sua forma. Tinha cabeça, braços, pernas, odorizava um cheiro amadeirado, fétido, era macio, rugoso, áspero, era doce, salgado, ácido e era ele respirando, um som freqüente batucando e sua boca rangendo.
Interpretei o sujeito ali, inventei o Homem, à minha imagem. A minha linguagem emergiu narrando um Homem paradigmático, a ordem fria da minha realidade.
Uma gota d'agua caiu sobre ele, tremulou até sumir sua imagem. Inventei que era eu mesmo o Deus-Homem, que inventa e é inventado. A imagem sumiu, fiquei cego, surdo, sem tato, paladar e olfato. Não existi mais, o significado daquele homem era a interpretação de minha realidade linguística.
Todos os dias me reinvento e invento um mundo onde posso existir em harmonia com outros signos me inventando, trazendo à luz meu ser, uma existência, minha memória.
Sou tudo e nada, eterno vir-a-ser. E se me lê é porque me inventa e passo a ser em sua memória.

Friedrich Romalek